O estigma e a auto-ajuda

O termo estigma foi concebido pelos gregos em referência a sinais corporais, nos quais se reflectia algo de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os ostentava. No presente, com outras pessoas, estabelecemos preconcepções e enquadramos cada pessoa numa categoria a partir dos seus atributos ou de um status social. Imputamos aos indivíduos expectativas que por vezes não os caracterizam, criando uma identidade social virtual; a categoria e os atributos que o indivíduo na realidade prova possuir é a sua identidade social real. Catalogando um sujeito deixamos de considerá-lo comum e total, reduzindo-o ao seu estigma. 

Em situações sociais o estigmatizado é geralmente evitado, a maioria isola-se, assim os sentimentos de desconfiança, depressão e hostilidade são exteriorizados. Em contacto os “normais”, o estigmatizado defrontará directamente as causas e efeitos do estigma, pois não sabe em que categoria será colocado, o que gera uma sensação de não saber o que pensam sobre ele; pode sentir-se em exibição, o que de facto acontece. Existe uma curiosidade mórbida a respeito da sua condição, assim é comum numa situação social mista que os indivíduos estigmatizados actuem de forma defensiva, algumas vezes num comportamento retraído, noutras num comportamento agressivo.

Nos Estados Unidos da América no início do século XX, desabrochou o conceito de "ajuda mútua", quando um médico e um empresário com problemas de alcoolismo enxergam que quando se juntam com a intenção da abstinência, falam e partilham a sua situação, o problema diminui e ajuda-os a não beber; surgiram assim os "Alcoólicos Anónimos", expoente máximo das associações de auto-ajuda. No processo estão implícitas ideias de bem-estar individual, autocontrole e procura de conhecimento que a pessoa tem de si mesma; o desenvolvimento económico, tecnológico e burocrático, assim como o surgimento de grandes metrópoles contribuíram para tal mudança. 

Freud, no segundo capítulo de "O Mal-Estar...", indica três medidas paliativas empregadas pelos homens em busca de alívio para o mal-estar que os assalta como consequência da sua inserção na cultura: a actividade científica, a religião e a intoxicação. Para ele, a mais rude e também mais eficaz destas medidas é a intoxicação, porque torna o homem insensível à sua desgraça. Esse método de evitar o sofrimento leva o organismo a procurar satisfação em processos psíquicos internos, com o intuito de tornar-se independente do mundo externo e, além disso, proporciona sensações prazerosas. 

A inclusão num grupo com regras, conduta e filosofia própria, compõe um adquirir de significados que permaneciam já presentes na “busca”, que cada pessoa por si mesma faz. O acesso e continuidade, primitivamente manifestados na procura de solução, para problemas específicos e delimitados pela sua própria natureza, revela ao longo do tempo de frequência e integração dos intervenientes, um carácter de redefinição do sujeito; este é consciente da sua própria transformação, que passa a ser não só desejada, mas sentida e necessária. O “tornar-se” membro é igualmente um acesso para uma outra dimensão do ser enquanto indivíduo, dentro de um colectivo no qual se renova e reformula. Conseguem-se novos modelos comportamentais e interpretativos que assentam na transmissão deste conhecimento; oferece-se a possibilidade de retorno à normalidade, ou seja, ao campo da hegemonia, escapando à inevitabilidade de uma vida estigmatizada, nas margens.

Os indivíduos tendem a agrupar-se; estas associações são um reflexo das tendências encontradas na sociedade contemporânea: constante mobilidade dos indivíduos, perda da personalidade devida à burocracia, massificação das trocas comerciais e novas formas de interacção entre os indivíduos. Trata-se ainda de uma busca de afirmação/confirmação, de uma forma de reconhecimento perante o outro que, por sua vez, faz parte da forma como o sujeito se define a si mesmo. “Relaciona-se não só com a forma como o membro interage com as outras pessoas dentro e fora do grupo mas também consigo mesmo, o que reflecte que existe uma consciência de si próprio, de quem é, de quem pode ser neste ou num outro contexto”. (Cohen 1994).

Berger e Luckman (1998), assistem na compreensão dos conceitos de “socializações de conversão” e “alternação”. “A alternação exige processos de ressocialização. ... Uma “receita” para a alternação bem-sucedida deve incluir condições sociais e conceituais... uma base social que sirva de “laboratório” da transformação. Socialmente isto significa uma concentração de toda [a] interacção significante dentro do grupo que corporifica a estrutura de plausibilidade e particularmente no pessoal a quem é atribuída a tarefa de ressocialização. ... A mais importante exigência conceptual da alternação é a disponibilidade de um aparelho legitimador para a série completa da transformação. O que tem de ser legitimado não é somente a nova realidade, mas as etapas pelas quais é apropriada e mantida, e o abandono ou repúdio de todas as outras realidades.” 

A constituição e consolidação de determinados estereótipos pode ser entendida a partir de um sistema de retroalimentação. Pode verificar-se por informações científicas deturpadas e grupos formadores de opinião ideologizadas, profusamente divulgadas em mídias de massa, que intensificam alguns estereótipos já existentes na sociedade em geral; tal mecanismo pode influenciar inclusivamente as políticas públicas, que reforçam determinados estereótipos e a exclusão de algumas pessoas aos seus direitos como cidadãos.

Evitar a humilhação dos outros não é suficiente, é necessário também dignificá-los , na sua alteridade, preferências e direito de ter preferências. Conforme Edmond Jabès, "o único é universal", ser diferente faz-nos semelhantes, só podemos respeitar a nossa própria diferença respeitando a diferença do outro. "O caso do estranho diz-me respeito não apenas porque eu mesmo sou um estranho, mas porque por si mesmo levanta os problemas que enfrentamos em princípio e nas aplicações diárias da liberdade, do poder, do dever e da fraternidade: em primeiro lugar, o problema da igualdade dos homens; em segundo lugar, o da nossa responsabilidade para com eles e nós mesmos."

Não é difícil entender como é complicada, na vida de uma pessoa estigmatizada, a questão da aceitação pelos “normais”; depende de um processo constante de “negociação”, realizado pelo indivíduo e pelas normas da sociedade; obedece à percepção dos pressupostos dos “normais” a respeito da situação; transforma-se de acordo com a etapa de vida do indivíduo; de acordo com as demostrações da “diferença ou anormalidade”, etc. A não-aceitação social de um indivíduo estigmatizado pode vir a caracterizar um processo cruel de exclusão, depreciação e isolamento, levando o indivíduo à “morte civil”; a antecipação da morte pela perda da cidadania, do respeito e de todos os direitos. O tema “morte civil” não é somente uma metáfora; ela transmite um género de medo que paira sobre a vida do indivíduo, compelindo-o a tomar determinadas posturas e alterando-lhe o comportamento. Segundo Goffman (1988), mesmo quando alguém pode manter em segredo um estigma, descobrirá que as relações íntimas com outras pessoas, autenticadas na sociedade pela confissão mútua de defeitos invisíveis, levá-lo-ão ou a admitir a sua situação perante a pessoa íntima, ou a sentir-se culpado por não o fazer.

Palavras-chave: Estigma; exclusão; identidade; auto-ajuda. 

Bibliografia:


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Goffman, E. (1986). Stigma: notes on the management of spoiled identity. New York: Touchstone.

Lopes, M. G. (2009). O estigma da exclusão social, educação, poder e a utopia da inclusão. Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção - Atelier: Exclusões. Acedido em 27 de Dezembro de 2010 em: www.google.com

Mota, L. A. (2005). Drogas e Estigmas. II Semana de Humanidades. Universidade Federal do Ceará.

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Correia, T. (2007). O lugar dos grupos de auto-ajuda na configuração do estado-providência. Sociologia, problemas e práticas. 55: 117-141.

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