Casar? Porque Não?


Torres, Anália (1997), “Casar? Porque Não? Práticas e perspectivas de jovens portugueses sobre o casamento e a família”, in J. M. Pais, L. Chisholm (coords.), Jovens em mudança - Actas do Congresso Internacional Growing up between centre and pheriphery, Lisboa, ICS

Resumo: 

Observaram-se mudanças recentes nas sociedades contemporâneas, quanto á forma de encarar o casamento. Legislações, tradições religiosas, níveis de desenvolvimento, contextos sociais e culturais diferentes, originam comportamentos diferentes nas práticas e valores. 

Valorizam-se mais os valores intrínsecos do que a instituição em si, o “modelo modernista” sobrepõe o “eu” ao nós-casal. O bem-estar individual orienta as escolhas, a manutenção a qualquer preço do casamento não faz sentido. Aumentou a coabitação como desapego à instituição, sem recusa da vida conjugal ou casamento formal. 

Homens e mulheres têm características diferentes, com diferente valor no decurso da vida conjugal e de acordo com os papéis sexuais. Existe controlo paterno no grupo das jovens mulheres que podem transformar o casamento num passaporte para a “liberdade”. O casamento é retardado, a entrada na vida conjugal faz-se pela coabitação e não pelo casamento com tendência a esperar pelo nascimento do primeiro filho. A descida da nupcialidade, o aumento do divórcio e a queda da natalidade, são explicadas pelo crescimento das classes médias e da actividade feminina no exterior. 

Em Portugal é prática habitual entrar na vida conjugal através do casamento. A união de facto tem poucos adeptos por isso existem outra razões para os jovens casarem. As posições variam de acordo com o sexo, grau de instrução e religião; as mulheres defendem mais a posição não institucional face ao casamento. Viver junto antes de casar tem mais adesão do que a união de facto duradoura. A decisão sobre a modalidade é tomada quando o momento chegar decide-se com o parceiro e famílias próximas. 

Para que o casamento resulte basta amor. Os jovens e mais velhos responderam que não basta. Verifica-se transformação. Os actores sociais tem uma visão do casamento não exclusivamente romântica - a conjugalidade envolve varias formas de interacção e entreajuda, varias gradações de sentimento e emoção. Não basta solidariedade e responsabilidade, nem amor e empenhamento. Tudo depende dos processos de conjugalidade não condenados à rotina, com mais êxito quando a partilha e autonomia estão presentes. 

Existem quatro tipos de posições quanto ao tipo de celebração do casamento: pragmáticas, estatuárias, ritualistas e espiritualistas. Os jovens com formação universitária optam pelo pragmatismo; casar é mais cómodo para não levantar problemas com a família (parece mal). Continua a existir o tabu da sexualidade, o casamento é juridicamente confirmado, mais forte do que a união de facto e apresenta vantagens a nível de impostos e benefícios fiscais, etc.. 

Para os jovens sem formação universitária o desejo de casar é garantia de estabilidade e forma mais evidente de conseguir estatuto e respeitabilidade. Formalizar o casamento contribui para ganhar estatuto de adulto em alternativa à coabitação; garante perante os pais, autonomia e maior liberdade, é nestes sectores que o controle das raparigas antes do casamento se exerce de forma mais apertada. 

Noutros países a coabitação anterior ao casamento é como fase de selecção de parceiros, em Portugal esse período transfere-se para o casamento. Numa perspectiva ritualista casa-se pela igreja sem grande convicção religiosa; pode existir mistura de argumentos do tipo estatuário, pragmático e ritualista. O casamento é considerado como um marco, compromisso ou meio de adquirir estatuto. A cerimónia religiosa é o rito de passagem e sinal evidente para conseguir o desejo respeitabilidade e conformidade. 

A prática espiritualista é menos frequente e é uma versão “moderna” da ideia do casamento como sacramento. Permanece o compromisso de manter a convicção religiosa, com a liberdade de não seguir as prescrições da Igreja, em aspectos da vida e do quotidiano conjugal, (aceitação do divórcio e relações sexuais antes do casamento). 

No que respeita ao modelo de família surgiram mudanças em Portugal. Há 30 anos sustentava-se o modelo tradicional com a divisão de tarefas entre homens e mulheres hoje sustenta-se perspectiva simétrica (o homem e a mulher devem os dois trabalhar fora de casa e partilhar com os filhos as tarefas domésticas), mas na prática a partilha não é efectivamente igualitária. 

São as fracas remunerações dos homens que incitam o trabalho profissional das mulheres para garantir condições de vida acima dos limites da sobrevivência, o que se traduz numa alteração no domínio dos valores. A defesa destes valores tem efeitos simbólicos de reestruturação cognitiva. As mulheres sobretudo as que trabalham em situações mais penosas valorizam a actividade profissional pela autonomia, identidade social e valorização acrescida do quadro do funcionamento familiar. 

Os sectores intermédios aderem ao modelo associativo - privilégio do eu sobre o nós família - os que pertencem aos sectores populares preferem o modelo fusional – maior atenção aos interesses do grupo familiar em detrimento do interesse individual. Os católicos e protestantes, aderem ao voluntarismo, ideias de necessidade, sacrifício e empenhamento, aderindo menos à desinstitucionalização do casamento. Não se notam diferenças quanto a religião na escolha da ideia de partilha e autonomia. 

Conclui-se que o casamento religioso é um ritual; opta-se por ele de forma pragmática, porque o ritual religioso é mais valorizado socialmente do que o casamento civil. É necessário ter em conta que a prevalência das posições ritualistas ou pragmáticas só se entende no quadro das referências valorativas e jurídicas actuais divórcio). 

A celebração do casamento representa algum pragmatismo. A partir de argumentos diferentes, ritualistas estatuários ou apenas pragmáticos a maioria tende a optar pelo que mais lhe convém, no momento apropriado, sem padrões rígidos e inamovíveis. É uma posição diferente face as ideologias. As etiquetas antigas não identificam claramente as praticas e opiniões, continuando a existir contudo regularidades geradas por condicionamentos diversos. 

Existe diferença entre homens e mulheres a respeito da aceitação do divórcio, explicada pelo efeito do género. As mulheres tendem a ser mais dependentes no casamento por factores de discriminação. 

Há uma configuração normativa a apontar para uma visão desinstitucionalizada, dessacralizada e democrática do casamento. Os valores intrínsecos e relacionais prevalecem sobre os valores da instituição ou tradição . Admite-se que o laço conjugal se possa quebrar de dentro para fora, sempre que os valores intrínsecos sejam postos em causa. E a simetria entre homens e mulheres que é considerada parte integrante é regra no jogo relacional. 

By Fatma

Fatma's Social

Sem comentários :